Em hora de balanço do ano velho, a tendência é olhar para o que foi feito, avaliar o que aconteceu e se tornou visível. Com isso, há o risco de deixar na sombra o que ficou por dizer, as passividades, as omissões.
O silêncio é uma categoria ambivalente na nossa vida e também no jornalismo. Sem ele, a palavra dita não produz fruto e torna-se vozearia ou tagarelice.
Sem fazer silêncio, ninguém pode escutar o outro. Mas o silêncio a que hoje me reporto é o daqueles que não têm voz ou cuja voz não é escutada, a não ser que sirva para alimentara voz (e os negócios) de outros.
Os estudos da teoria do gatekeeping, ou seja, dos processos de decisão sobre aquilo que merece ser notícia sublinharam que a esmagadora maioria (perto dos 90%) das matérias às quais os media tinham acesso nunca via a luz do dia, por falta de interesse ou de espaço.
Hoje, com a multiplicação de fontes e de canais essa percentagem é, tudo o indica, maior ainda. Mas, cabe perguntar: e aquilo que nunca chega ao conhecimento dos media? E aquilo de que os media tomam conhecimento mas nem chegam a incluir na sua agenda de preocupações?
Proponho um exercício simples: pensemos nos assuntos que constituem preocupação maior no nosso dia-a-dia e no quotidiano daqueles que conhecemos. Que relação existe entre esses assuntos e aquilo que merece tempo, espaço e destaque nos jornais, revistas e telejornais?
Exercício análogo poderia ser feito para certos grupos e problemáticas sociais, para certas áreas do território, para certos continentes. E a conclusão só poderia ser uma: as zonas de silêncio na vida pública, em matérias de grande relevância, são clamorosas e ensurdecedoras.
Os grandes media preferem encandearnos com os holofotes daquilo que erigem como importante, e nós lá vamos, entretidos, a acompanhar a música que eles nos dão.O problema não é só dos media. E eles sabem disso. Daí que, apesar da crise ou por causa dela, poucos sinais dêem de, a par das falas e dos textos, quererem escutar o que realmente (pre)ocupa e motiva as pessoas da rua.
Ninguém compreende nada do que se passa à sua volta se, a par do “dito” nos media, não procurar olhar para o “não-dito”.
Manuel PintoProfessor da Universidade do Minho