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Opinião Página 1: Manuel Pinto
Inserido em 28-12-2009 17:59



E o que as notícias não dizem?

Em hora de balanço do ano velho, a tendência é olhar para o que foi feito, avaliar o que aconteceu e se tornou visível. Com isso, há o risco de deixar na sombra o que ficou por dizer, as passividades, as omissões.

O silêncio é uma categoria ambivalente na nossa vida e também no jornalismo. Sem ele, a palavra dita não produz fruto e torna-se vozearia ou tagarelice.

Sem fazer silêncio, ninguém pode escutar o outro. Mas o silêncio a que hoje me reporto é o daqueles que não têm voz ou cuja voz não é escutada, a não ser que sirva para alimentar
a voz (e os negócios) de outros.

Os estudos da teoria do gatekeeping, ou seja, dos processos de decisão sobre aquilo que merece ser notícia sublinharam que a esmagadora maioria (perto dos 90%) das matérias às quais os media tinham acesso nunca via a luz do dia, por falta de interesse ou de espaço.

Hoje, com a multiplicação de fontes e de canais essa percentagem é, tudo o indica, maior ainda. Mas, cabe perguntar: e aquilo que nunca chega ao conhecimento dos media? E aquilo de que os media tomam conhecimento mas nem chegam a incluir na sua agenda de preocupações?

Proponho um exercício simples: pensemos nos assuntos que constituem preocupação maior no nosso dia-a-dia e no quotidiano daqueles que conhecemos. Que relação existe entre esses assuntos e aquilo que merece tempo, espaço e destaque nos jornais, revistas e telejornais?

Exercício análogo poderia ser feito para certos grupos e problemáticas sociais, para certas áreas do território, para certos continentes. E a conclusão só poderia ser uma: as zonas de silêncio na vida pública, em matérias de grande relevância, são clamorosas e ensurdecedoras.

Os grandes media preferem encandearnos com os holofotes daquilo que erigem como importante, e nós lá vamos, entretidos, a acompanhar a música que eles nos dão.
O problema não é só dos media. E eles sabem disso. Daí que, apesar da crise ou por causa dela, poucos sinais dêem de, a par das falas e dos textos, quererem escutar o que realmente (pre)ocupa e motiva as pessoas da rua.

Ninguém compreende nada do que se passa à sua volta se, a par do “dito” nos media, não procurar olhar para o “não-dito”.

Manuel Pinto
Professor da Universidade do Minho






               
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