“Eu não quero ser filmada” – Estela Augusto olhava com desconfiança para a câmara e para mim, a jornalista por trás dela. Respeitei isso. Mas aquele olhar constante, como se desconfiasse de que eu a quereria apanhar em falso incomodava-me. Só por causa disso, apontava a câmara sempre na direcção contrária da dela. Se ela ia para um lado da mesa, eu ignorava esse lado. Se ela estava a falar, a minha postura era claramente a de alguém que não estava a gravar nada.
Cerca de uma dezena de pessoas à volta da mesa lêem pela enésima vez em voz alta a peça. Chama-se “Limiar” e fala-nos das fronteiras da normalidade, da loucura, dos preconceitos da sociedade, da inocência, da maldade. Não são conceitos novos para ninguém. Mas são as eternas grandes questões da humanidade. Sobre isto ainda hão-de correr rios de tinta, há-de haver sempre mais pano para mangas. João Silva, o encenador e autor do texto, confessa que se limitou a “traduzir para palavras” os sinais que o grupo de actores lhe transmitiu.
Se, a certa altura, a minha presença já quase não era sentida entre os membros do grupo de teatro, isso nunca aconteceu com a Estela, sempre atenta aos meus movimentos. Às vezes até falava alto, para todos, mas era como se falasse para mim. Espreitava-me pelo canto dos olhos. Parecia revoltada. Não comigo, claro. Mas com todos. Tinha sempre uma resposta na ponta da língua e, chegada a hora de saída, não tinha tempo (nem paciência, com certeza) para continuar o que quer que estivesse a ser feito.
“Eu acho que há muita insegurança e muitos medos na nossa maneira de estar”, diz João Silva, salientando que estes actores, nisso, não são diferentes das outras pessoas. O teatro aqui é uma forma de eles mostrarem como se sentem no dia-a-dia. “Quando a sociedade se apercebe de que temos problemas mentais, há logo uma barreira, somos vistos com pessoas com limitações”, explica Olga Varanda. Está há dois anos no Grupo de Teatro e conta que lá “aprendeu a pôr-se no lugar de outras pessoas, e a ver as coisas de maneira diferente”.
Um dia, fui a um ensaio pensando que seria a primeira vez que os actores iriam experimentar a peça num cenário. Quando lá cheguei, descobri que afinal seria mais um dia de leitura à volta da mesa. Decidi ficar na mesma, mas como observadora apenas. Depois de arrumar o meu material, quando me preparava para me sentar no meio deles, a Estela fez-me sinal. Tinha guardado uma cadeira ao pé dela para mim.
Os ensaios ocupam uma manhã, três vezes por semana. A ideia é ajudar as pessoas a manter rotinas, a empenharem-se a sério num projecto. Afinal, o grande objectivo aqui – e é isto que diferencia este grupo de outro qualquer de teatro – é a terapia. Quando os actores sentirem que estão prontos, partem então para outros palcos, re-constroem a sua própria vida, e dão lugar a novos actores. Só João Silva se mantém fiel no grupo desde a sua fundação, há 40 anos. Se lhe perguntarem, descobrirão que também não quer outra coisa. Nem admite que às vezes os dias possam ser cansativos, como em qualquer outra profissão. "A única coisa que me cansa é o sistema. Nunca me arrependi do que faço".
No intervalo, até fez questão de me mostrar a máquina de café que estava numa sala ao lado e ensinar-me a trabalhar com ela. Mais tarde, veio a aceitar que eu a entrevistasse. Fiquei radiante com esta “conquista”. E ela explicou-me, recorrendo outra vez àquele tom meio revoltado, de quem está a dizer algo óbvio, mas que, por algum motivo, precisa de ser dito: “Gostava que as pessoas estivessem receptivas para o que nós temos a dizer. Só isso”.A peça vai estar em cena no Teatro Nacional Dona Maria II, de 12 a 15 de Novembro.