Até ao início da década de 60 viajava-se praticamente sem qualquer controlo entre as partes oriental e ocidental de Berlim.
Não é de espantar, portanto, que até 1961 quase 3,5 milhões de alemães de Leste tenham aproveitado os fracos controlos fronteiriços para escapar para a Alemanha Ocidental por essa via.
Mais do que o número total de pessoas, o que preocupava os comunistas era a fuga dos intelectuais, que privavam assim a Alemanha de Leste da sua massa crítica. Os que ficavam para trás viviam num dos estados policiais mais autoritários e rigorosos do mundo.
O resultado pôde ser verificado por Carlos Martins, jornalista do "Deutsche Welle", na altura correspondente do Expresso na Alemanha. “As pessoas viviam numa apatia conformada. A iniciativa individual não era bem vista – pior, era altamente suspeita - mesmo em coisas corriqueiras do dia-a-dia e não apenas na política”, recorda.
“O estado era o pai super protector e omnipresente que decidia tudo, que controlava tudo”, diz. “As lojas estavam às moscas, os empregados completamente desinteressados e indiferentes se alguém comprava ou não comprava. Vivia-se numa paz de cemitério”.
Foi então que surgiu uma solução radical para o problema: um muro, inultrapassável, para separar a zona ocidental do resto da RDA. Uma enorme estrutura de betão armado a que cinicamente se chamou “muro de protecção contra o fascismo”.Durou 28 anos. Os números variam, mas entre 100 e 200 pessoas terão morrido a tentar passar por ele. Um dos mais famosos, Peter Fechter, de 18 anos, foi atingido a tiro e esvaiu-se em sangue em plena vista dos guardas ocidentais, que não o podiam salvar com medo de que os orientais abrissem fogo.
No dia 11 de Novembro de 1989, mesmo que metaforicamente, o muro de Berlim caiu: “No primeiro momento fiquei bloqueado, não me dei logo conta de que estava a assistir a um dos momentos mais importantes e dramáticos do século XX”, explica Carlos Martins.
“A queda do Muro de Berlim significou o princípio do fim da RDA, e, por efeito de dominó, de todo o bloco leste e da utopia comunista. Vivi intensamente os dias seguintes, embora eu não seja alemão. Mas a democracia e a liberdade não têm nacionalidade”, conclui.
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